
Campeão Nacional, vencedor da Taça de Portugal e finalista da UEFA Futsal Cup, ao serviço do Benfica, com cerca de 15 anos de carreira como treinador, iniciada no Recordação de Apolo, Alípio Matos, tem em mãos, aos 50 anos, o desafio de conferir ao Belenenses um título inédito para a modalidade do clube. Em entrevista ao Futsal Global, o técnico fala do presente e do futuro do clube do Restelo, assim como as suas metas e ambições.
Futsal Global (FG): Em 17 jogos, a sua equipa consentiu apenas um empate e uma derrota e lidera o Campeonato. Esperava uma época assim?Alípio Matos (AM): Nós quando preparamos a equipa no início da época, logicamente que pensamos ter rentabilidade em termos de jogo e em termos de resultados. É para isso que treinamos e trabalhamos. É verdade que os resultados têm excedido as expectativas, não é fácil um percurso destes em 17 jogos, muito poucas equipas o conseguirão fazer e partindo do princípio que o objectivo do Belenenses, no início da época, era tentar chegar ao play-off, o mais à frente possível, não pensávamos que era possível fazermos um percurso assim, porque percursos destes acontecem de vez em quando, mas o que acontece é que por mérito da equipa e dos jogadores, as coisas foram correndo bem, a equipa foi acreditando, foi jogando cada vez melhor e hoje se virmos as coisas para trás, pensamos que há alguma justiça neste percurso, que já não é surpresa, face à qualidade que a equipa tem demonstrado.
FG: Consegue identificar o segredo para este sucesso?
AM: O Futsal não tem segredos, tem a ver fundamentalmente com a qualidade dos jogadores, com a adaptação deles à equipa, aos métodos de trabalho e à filosofia do clube. Esta adaptação foi mais rápida do que nós pensávamos e portanto se nós pensássemos que os resultados poderiam aparecer a médio prazo dentro do Campeonato, não seria mau, mas realmente foram antecipados e esse percurso, ao longo da época até aqui, é mérito dos jogadores.
O Título
FG: Há pouco disse que no início da época os objectivos da equipa passavam chegar ao play-off, o mais à frente possível. Depois deste percurso até ao momento, a equipa já se pode assumir como candidata ao título?AM: Havendo play-off é sempre complicado. Uma equipa até pode ficar em primeiro nesta fase e depois ser eliminada nos quartos-de-final. É tudo muito relativo, as equipas cada vez estão mais fortes, os confrontos são cada vez mais equilibrados para o bem do futsal. O que nos tem de fazer acreditar que é possível lutarmos para sermos campeões, é tudo isto que eu considerei agora. Isso é que nos dá garantias e confiança, que a equipa pode lutar por esse objectivo, agora, lá chegar ou ser, é diferente. Que a equipa poderá ter condições, tem categoria e capacidade para poder lutar por ele, estou convencido que tem, o resto logo se verá.
FG: Mas tem algum receio que no play-off, onde se vai decidir tudo, a equipa não esteja preparada para esse desafio?
AM: A equipa está preparada, agora, nós não jogamos sozinhos, as outras equipas também têm mérito e nada me garante que uma equipa no play-off não nos possa eliminar, e portanto temos que estar preparados para tudo, embora não desejemos que isso aconteça como é lógico. Jogamos contra adversários fortes e um dia bom ou um dia mau, pode sempre decidir uma eliminatória.
Os reforços
FG: Falando agora dos reforços de Inverno. O que vieram acrescentar à equipa o Caio Japa, o Max e o Diogo?AM: O Diogo é um jovem, uma aposta a médio prazo, um jogador que nunca jogou futsal, mas que tem boas potencialidades e portanto não vai ser já a mais valia. O Max e o Caio são jogadores diferentes que vieram colmatar as lacunas que nós tínhamos na equipa. O Max é um bom pivot e o Caio é um universal que veio preencher uma falta que tínhamos desde a saída do Miguel Cautela, sendo um jogador polivalente, que joga como fixo e ala, e vem muito bem conceituado do Brasil. Pensamos que são dois apoios importantes da equipa nesta última fase do Campeonato.
A parceria
FG: Que tipo de benefícios para o clube poderá trazer a parceria estabelecida com a ElPozo?
AM: Pode trazer uma maior visibilidade e em termos estruturais para o futsal do Belenenses, uma consolidação do projecto. É evidente que isto é sempre uma bola de neve, tendo melhores orçamentos, permite-nos ir buscar melhores jogadores, se tivermos melhores jogadores podemos ser melhor equipa e ficarmos mais competitivos. É sempre isso que acontece quando há bons patrocinadores e a ElPozo é realmente um apoio importante, não só em termos do prestígio da marca, mas também em termos daquilo que é o conhecimento dela e do facto de já estar nesta modalidade em Espanha há muitos anos, onde tem talvez a equipa mais forte. É uma empresa que vive a modalidade e o comportamento da equipa, temos tido espanhóis ligados à ElPozo a ver os nossos jogos em Lisboa. Vai haver um protocolo entre as duas equipas, na parte de jogadores, contactos e formação, por isso penso que temos muito a ganhar com uma equipa desta envergadura.
FG: Poderão contratar jogadores de renome através deste entendimento?AM: Vamos ver. Nós precisamos de continuar este percurso de evolução do Belenenses, criando uma estabilidade e um estatuto de possíveis candidatos a ganhar algumas coisas em Portugal. Primeiro passará por aí. Tem sido um ano e uma subida muito rápida no futsal do Belenenses, passámos em dois anos de oitavo lugar, sem hipóteses de discutir o que quer que seja, para uma situação de liderança pontual, com os próprios analistas a dizerem que a equipa poderá ser uma das candidatas. Nós queremos é que este percurso seja consolidado e não seja uma coisa pontual de um ano, de forma a estar presentes nas decisões mais tempo e mais vezes, ganhando um estatuto de candidato, que é muito importante.
A profissionalização
FG: Está para breve a profissionalização do futsal no Belenenses?
AM: Sou apologista das estruturas profissionais consolidadas e com orçamentos para isso. Penso que ainda não conseguimos a curto prazo ter essa estrutura profissional, porque acho que isso implica grandes valores e grandes custos e o Belenenses não tem, como a maior parte das equipas não o têm. Poderá é ser uma semi-profissionalização. Nós pretendemos é que a nível estrutural do clube, se crie condições para cada vez se trabalhar melhor, de forma a que se possa continuar nesta senda de ter aspirações, motivações mais fortes e ambição para poder disputar as provas e tentar conquistá-las, mas eu não acredito ainda muito no profissionalismo total, porque não há estruturas para isso.
FG: O futuro do Alípio Matos passa pelo Belenenses?AM: Passa. Neste momento diria que passará, se aquilo que eu acho que deve ser a estrutura do futsal se mantiver e a Direcção que aí vem, conseguir dar à modalidade o apoio que ela necessita, se assim for..., logicamente que ficarei. Se as coisas mudarem em relação aquilo que eu estou à espera, se calhar aí temos que pensar de outra maneira, mas acho que ainda é prematuro estarmos a pensar nisso.
Os internacionais
FG: A Selecção Nacional neste momento conta com dois jogadores do Belenenses. Sente orgulho na chamada deles?
AM: Muito orgulho. Não só eu, como toda a equipa de trabalho. Penso que é inédito no futsal do Belenenses e mais gozo nos dá e mais orgulhosos ficamos, quando temos a noção que um jogador veio da 3ª divisão de Espanha e tinha jogado nos últimos seis meses num clube da 2ª divisão (Pedro Cary), e o outro (Jardel), um jogador que estava quase "proscrito", esteve no Benfica três anos e nunca conseguiu ir à selecção, e sendo um bom jovem e um rapaz muito especial, conseguimos que ele potencializasse o valor que tem, e está à vista que se transformou do dia para a noite, e hoje é um grande jogador de equipa, sendo premiado pela época que está a fazer com a chamada à Selecção Nacional.
FG: Sente que contribuiu para a chamada deles?AM: Temos sempre uma quota-parte, para o bem e para o mal, neste caso para o bem. Sentimos que, através das palavras, daquilo que falamos com os jogadores, procuramos fazer com que eles evoluam, e é por esse motivo que estamos muito satisfeitos e contentes, e o próprio grupo está muito orgulhoso de ter dois internacionais na Selecção Nacional.
O Futsal português
FG: Uma última questão. Que análise é que faz ao actual momento do futsal português?
AM: Este foi um ano interessante, a nível das transmissões e a SIC tem dado uma visibilidade grande à modalidade. No entanto, acho que alguns pormenores têm que ser rectificados acerca das transmissões, talvez passando um pouco a febre das audiências. Se calhar mais vale perder dez mil espectadores, mas dar um grande jogo de futsal, porque a seguir ganharemos mais quarenta ou cinquenta mil. Há esses pormenores que têm de ser revistos.
Agora penso que a nível de imprensa, a nível de comunicação geral e da visibilidade que a Federação terá a dar à modalidade, ainda há muito por fazer. Há que criar situações de expansão e de conhecimento da modalidade na imprensa desportiva mais importante, de forma a que as pessoas, com a televisão e com os jornais, ganhem realmente um ponto de referência, o que esta modalidade tem para dar, que tem muito e para que ela possa continuar a crescer e se possa continuar a ganhar clubes, para um crescendo também em termos de competição, proporcionando melhores espectáculos, porque isto é a tal bola de neve, quanto melhores espectáculos tiver, mais patrocinadores se arranja, e logo as equipas serão mais fortes. Tudo isto, pode contribuir para que a modalidade dê realmente um salto em termos de qualidade, que todos nós necessitamos para quando vamos jogar contra equipas estrangeiras, selecções e clubes, consigamos ter a tal competitividade presente.
Há muito trabalho para fazer e espero bem que as pessoas vão analisando as coisas, de forma a projectarem a modalidade para um patamar que ela merece. Os factos que são apontados pelas transmissões televisivas, pelas audiências e pelas pessoas que vêm aos pavilhões, já justificam uma maior atenção, aquela que é a maior modalidade, a seguir ao futebol de 11.
As pessoas não podem continuar distraídas e a fazer de conta. Os jornais em vez de dar duas linhas, deviam dar meia página, ou uma página, a falar de futsal, ainda não dão, porque há muitos lobies nos jornais, que ainda não entendem a realidade do futsal.